A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Teologia negra hoje

Gercymar Wellington Lima e Silva

A afirmação étnica do negro no Brasil precipita uma reflexão ainda muito contida sobre as culturas africana e afro-brasileira no meio religioso cristão-evangélico-protestante. Há uma quase omissão do protestantismo brasileiro em debater a temática da negritude e sua participação na formação e na história da igreja evangélica no Brasil. A afirmação étnica do negro exige o espaço devido aos seus representantes.
A igualdade entre as raças e o convívio com as diferenças não é só uma discussão étnica. De modo semelhante, as políticas de ação afirmativa não são apenas demandas que estão na moda. Seria simplismo olhar as coisas por esse prisma! O crescimento e a adoção de políticas de ação afirmativa nos últimos anos são visíveis, embora haja segmentos da sociedade que se opõem ou se omitem a tal ação.
A Igreja Metodista ainda não incluiu claramente em sua agenda a reflexão do papel do negro e sua contribuição, mesmo tendo uma pastoral de combate ao racismo. Há muito, o negro brasileiro forja seu espaço e sua participação em diversos âmbitos da cultura: culinária, cosmética, música, literatura, religião, artesanato, línguas, ciências, artes, mitos etc.
A liturgia, por exemplo, vale-se da música, imprescindível na celebração. Porém, o que seria da música sem a variedade de ritmos? Haroldo Costa, em artigo na “Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”, diz que “a senzala foi o ambiente onde a música e os ritmos de origem africana se desenvolveram, e amplificaram a sua influência na casa grande”.
Hoje, a música africana ganha uma expressão afetiva incontestável, seja no meio secular ou no meio religioso. Avalia-se que o campo religioso brasileiro está em plena articulação com a emergência da afirmação étnica dos negros no Brasil. A propósito, “o candomblé, um dos símbolos de referência imediata da negritude brasileira, cresce como se acompanhasse a emergência da identidade afrodescendente e o ganho espaço-social que esses indivíduos vem ocupando na sociedade inclusiva”. [1]
A sanção da lei 10.639, que obriga o ensino de “História e Cultura Afro-Brasileira no Ensino Fundamental e Médio”, representa uma conquista singular da população negra ao lado do movimento negro. A iniciativa age sobre o sistema educacional com grande impacto, fazendo a sociedade discutir amplamente a temática. A questão desperta interesses de ordem política, econômica, social, histórica, cultural e religiosa.
Ao procurar se ajustar a essa iniciativa, o sistema educacional agrega uma discussão que envolve entusiastas e críticos -- o que faz fervilhar a opinião pública. A lei tem uma história que se confunde com a emergência do Movimento Negro dos últimos trinta anos. É possível que “os desafios para a implementação [da lei] são da mesma ordem dos que se antepõem ao avanço da luta contra o racismo”. [2]
A essa altura, a questão fundamental está mais do que evidente: Qual é, ou qual será a contribuição do protestantismo para a afirmação do negro no Brasil? Essa questão pode ser elaborada de uma forma mais criativa e/ou acadêmica: Qual é a cor e qual é o gosto das lideranças evangélicas em discutir a questão da afirmação do negro no Brasil? É por isso que a igualdade entre as raças e o convívio com as diferenças não é só uma discussão étnica; é política, social, cultural e religiosa. A discussão é um problema da nervura da sociedade brasileira.
O Fórum de Lideranças Negras Evangélicas, realizado recentemente, encaminhou um manifesto ao 2º Congresso Brasileiro de Evangelização pedindo um basta à omissão e ao silêncio da Igreja Evangélica a respeito da problemática do negro no país. A matéria, intitulada “Afrodescendentes evangélicos querem quebrar o silêncio das igrejas”, ganhou repercussão ao discutir missão integral. O manifesto diz que a igreja evangélica brasileira “só poderá viver verdadeiramente a sua missão integral se contemplar a questão do afrodescendente. Temos a convicção de que estamos vivendo tempos da manifestação de Deus entre nós e entendemos que os cristãos foram postos no mundo para ser consciência da sociedade, diz o manifesto”. [3]
Nessa reunião, foi evidente a presença de negros e negras metodistas, batistas, anglicanos, católicos, das igrejas Deus em Cristo e O Brasil para Cristo. O Fórum considerou que a luta do protestantismo histórico e de missão em prol de condenar a escravidão negra foi, no mínimo, apática. As missões protestantes encetaram a sua propaganda missionária priorizando a elite brasileira, estabelecendo igrejas e educandários distantes das classes exploradas e escravizadas. As missões só se manifestaram a favor da abolição quando o país inteiro estava convencido de seu fim.
Constata-se, entretanto, uma “perpetuação de práticas pedagógicas racistas”, cujos valores são os das classes dominantes, que tolhem a maioria de exercer sua cidadania plena. Além de ser minoria no poder, essa maioria é destituída, explorada e oprimida historicamente -- a maioria negra. Janete Pietá, deputada federal pelo Estado de São Paulo, diz ter tomado consciência da questão racial (e se tornado militante e ativista dos direitos negros) quando foi morar em São Paulo, e não conseguiu alugar uma casa por causa da cor da pele.
Apesar de reconhecer que as desigualdades afetam a população negra, a igreja evangélica brasileira vivencia mobilizações consideradas isoladas, que representam pequenos guetos de reflexão e/ou de ação afirmativa da negritude. Histórica e culturalmente, é vigente a imagem de que a pessoa negra não é inteligente ou capaz de exercer funções específicas, como de chefia e direção, freqüentemente ocupadas por pessoas brancas. A discriminação é maior ainda quando se trata da mulher negra. É fundamental que as idéias veiculadas pela mídia, especialmente em torno da beleza negra, sejam corrigidas. A propósito, “negro não é só lindo, é capaz, é competente”.
• Gercymar Wellington Lima e Silva é pastor metodista e especialista em estudos wesleyanos (Umesp e Unimep-SP). gercymar@gmail.com
Notas[1] Cf. Aislan Vieira de Melo, “Religião e afirmação étnica no Brasil contemporâneo: notas sobre a conversão no campo religioso”. Disponível em: www.naya.org.ar/congreso2002/ponencias/aislan_vieira_de_melo.htm. [2] Cf. Amauri Mendes Pereira, “História e Cultura Afro-Brasileira: parâmetros e desafios”. Disponível em: www.espacoacademico.com.br/036/36epereira.htm. Amauri atenta para prodigalidade de nosso país no que tange a efetividade das leis, propondo reflexões sobre três desafios: o político, o acadêmico e o da práxis. Conforme palavras do autor, “Temos, porém, o direito e o dever de estarmos atentos. Nosso país é pródigo em leis que não pegam. Ainda mais, com “temática tão problemática” -- pelo menos para os que não viam problemas (muitos não viam mesmo!) com os nossos currículos, livros e procedimentos didáticos racializados e euronorteamericanocentrados”. [3] Disponível em: www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/11/267808.shtml.
(Texto da revista Ultimato Online)

Poema sobre amizade

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein